quarta-feira, 13 de março de 2013

Rodopiando em bolhas de ar

Minha mãe decidiu me chamar de João Gostoso, talvez pra levantar minha autoestima. Ela sempre soube de mim mais que eu mesmo.
Cada dia naquele lugar era um inferno na Terra. Queria ser um gênio e não precisar ir pra escola, - imagina todos me parabenizando, tentando entender como era possível tamanha inteligência. - Mas não fui presenteado com tal grado, assim como o da beleza (não se deixe enganar pelo segundo nome).
Cresci amargurado com todos os meus problemas, não sei se não gostava de ninguém, porque ninguém gostava de mim, ou se ninguém gostava de mim porque eu não gostava de ninguém. Tive o emprego dos pesadelos, mas eu precisava pagar as contas.
- Bom dia - passou uma senhora sorrindo ao meu lado, enquanto eu descia o morro do Vidigal para tomar uma cachaça antes de ir trabalhar, passei direto. Não fui presenteado com a simpatia também, engraçado. - Mas o que faço aqui? - pensei alto, enquanto olhava para o copo de sangue amargo e transparente. Levantei e decidi fazer aquele dia diferente, que fosse só aquele, não me importava. Paguei a meota e mergulhei pelos becos e vielas até chegar lá embaixo. Andei por todos os lugares, conheci velhinhos com historias mirabolantes. Sentado numa praça conheci um cara que inicialmente se dizia estudante de Economia em uma faculdade aí, e ele falava tudo com tanta certeza, e beleza, que não tinha como não acreditar. Absorto. Adorei essa palavra, não fazia ideia do que poderia ser, mas me encantou. Ele me disse que era o jeito que fiquei quando ele começou a falar do novo pacote de economia da França. Entendi e ri baixo em meus pensamentos. Qual era mesmo seu nome? Carlos, isso! Carlos, então, me chamou para ir a um restaurante chique, ali perto, que tinha uma picanha na tábua inacreditável. Realmente, sublime. Pedimos um chope. Nunca conversei tanto igual àquele momento, nem quando realmente quis. Algo estava diferente. Fui ao banheiro e, quando voltei, Carlos não mais estava. Foi o mais próximo do amor que já cheguei em minha vida, pelo visto também não seria presenteado com o amor. Minha mãe costumava dizer que o amor era a o ápice da vida, o ponto alto. Ela nunca teve ensino nenhum, mas era uma mulher sábia, a única de minha vida. Depois da conta paga, estava eu andando sobre o deck da Lagoa. Dancei. O ponto alto de minha vida acabara de escapar. Rodopiei. Caí. Nunca soube nadar, quando era pequeno um menino dois anos mais velho me jogou na piscina do clube, fiquei roxo, mas me salvaram. Enquanto as bolhas de ar chegavam na superfície, tudo passou como um flash. Vi minha mãe me dando tchau na porta da creche, vi Carlos me enganando no Leblon e depois me toquei de que deveria ter feito muito mais, ter sido muito mais. Morri. 





Obs: Trabalho feito para aula de Comunicação e Expressão. 

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